desabafos,

o mundo anda complicado para os românticos


faz tempo que você já não precisa mais levantar pra mudar o canal, o controle remoto faz o trabalho. você não precisa mais encher as garrafas pra botar na geladeira, tem uma máquina que gela a água pra você. aquele filtro de café? esquece! agora você tem sachês que juntamente com a eletricidade produzem qualquer sabor dessa bebida.

para pra pensar quanto esforço nos é poupado com essa maravilhosa tecnologia que nos dá tudo na mão. como se não bastasse, a evolução não atingiu só os objetos. ela conseguiu a proeza de chegar nas pessoas (mas como objetos, se é que você me entende).

agora a gente não precisa se esforçar pra falar com ninguém. alguns cliques no teclado do celular e “. me explica pra que eu vou ligar ou encontrar uma pessoa e concentrar toda a minha energia nela, se eu posso falar com ela no whatsapp enquanto falo com outras pessoas, vejo o feed das minhas redes sociais e escuto uma música? não faz nenhum sentido.

e como fica o amor no meio desse tiroteio de facilidades? ah, o amor. eu tenho pena do amor. tenho pena de mim. tenho pena das pessoas dessa prole. tudo é tão fácil que o amor ficou muito difícil pra nós. conquistar uma pessoa está fora de cogitação, tenho mais o que fazer.

paquerar, eu? com a chance de levar um fora? mais fácil entrar no tinder que o match é garantido. na internet, esse mundo maravilhoso onde recebo eternos likes, eu sempre tenho com quem conversar, nunca fico sozinho. as pessoas da vida real são muito difíceis, elas têm muitos sentimentos e muitos problemas reais. prefiro ficar por aqui mesmo na “nuvem”. posso até conhecer alguém ou outro tangível, mas se ficar complicado demais, eu sumo!

sumir. essa habilidade incrível que aprendi com a modernidade líquida. é fácil, eu te explico, é só fingir que você nunca esteve na vida daquela pessoa e seguir na sua rotina normalmente. é só você esquecer que a pessoa do outro lado da tela tem sentimentos, o que é bem natural, já que você nem está vendo a cara dela mesmo. se ela for uma pessoa muito real, provavelmente vai querer entender o que está acontecendo. mas é só ignorar e fingir que ela não existe mesmo e, eventualmente, a pessoa desiste.

como eu amo essa época em que eu posso ser bem covarde. são poucas as coisas que eu tenho que enfrentar cara a cara. no amor e na amizade, tudo ficou bem tranquilo pra mim, quando tô afim, falo com a pessoa, quando não tô afim, não falo. se a pessoa tiver muito chata, silencio ou arquivo a conversa pra não atrapalhar as outras notificações.

quando a pessoa me cobra alguma coisa, é só eu dizer que tava muito ocupado, ela nunca vai saber a verdade mesmo. se for uma pessoa muito legal do outro lado, vai até acreditar em todas as mentiras que eu conto e continuar correndo atrás de mim. ah, como é bom ser frouxo. muito melhor que ser trouxa.

esse texto contém ironias

sarita bruta





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desabafos,

o peso de um padrão


o que eu mais falo aqui nesse blog é sobre ser você mesmo. sobre como cada um é único. sobre como o ser humano tem história, personalidade e, quem sabe, vidas passadas, próprias.

mas nem sempre aplico isso na minha vida. essa semana, por conta de uma determinada situação, percebi como sou capaz de generalizar tantos fatos. posso culpar meu cérebro por essa mania de automatizar pensamentos pra economizar energia. mas posso também me culpar por me deixar agir inconscientemente, trazendo prejuízos somente a mim mesma.

eu criei um padrão de percepção tão nocivo que não entendo como meu instinto de sobrevivência ainda não tinha acendido uma luzinha. é assim, se uma pessoa fala uma frase, apenas uma frase, eu julgo toda a personalidade dela e aceito como verdade. ou então, se ela se comporta exatamente como alguém que já me machucou se comportava, eu assumo a ideia de que ela também vai me machucar.

só quando a gente coloca no papel, que percebe o tanto de loucura. pelos meus estudos virtuais sobre psicologia, acredito ser uma estratégia completamente natural de filtrar pessoas boas e ruins. o problema é que esse filtro se tornou tão automatizado que tá meio que precisando de uns ajustes já. às vezes ele passa pessoas ruins como se fossem boas (esse erro é de fábrica, não tem jeito), mas o que me entristece é quando ela exclui pessoas boas qualificando-as como ruins por tão pouco.

eu só queria que essa generalização não fosse tão superficial. baseada em tão pouco conhecimento de causa. é como se você condenasse alguém depois de ter lido apenas a primeira página do processo.

a boa notícia é que sempre dá pra mudar isso e o primeiro passo já foi dado: perceber. o segundo passo acredito que seja se permitir. toda vez que essa exigência involuntária queimar, não devo me abater por ela. o segredo é ficar consciente do que você anda pensando e fazendo.

sarita bruta




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