empoderamento,

eu não posso sonhar por você


2017, ô ano do cão.

cenário brasileiro e mundial decadentes. um minutinho que eu acompanhasse qualquer jornal, já era suficiente para ouvir sobre inúmeros crimes, violência, corrupção, projetos de lei infundados e por aí vai.

o panorama da minha vida pessoal também não foi muito favorável. fui no inferno e voltei.

a grande parte de pessoas que conheço estão mal empregadas ou desempregadas mesmo. todo mundo comendo o pau que o diabo amassou.

os relacionamentos cada vez mais efêmeros, o disk sexo agora é mais acessível, é só abrir o tinder.

muitas pessoas com depressão ou com sérios distúrbios emocionais.

individualismo comendo no centro. talvez seja esse o motivo dos dois últimos fatos.

e eu poderia ficar aqui o dia todo tecendo queixas e lamúrias sobre tudo isso. não quero ser hipócrita de fechar os olhos para tudo de ruim que acontece. muito pelo contrário, incentivo o questionamento e acredito que, sem educação e conhecimento, o cidadão brasileiro, juntamente com a nação, não vão para lugar nenhum.

mas dizer que tudo é ruim é um vício. a maior parte do mundo não é ruim, a maior parte do mundo não está em guerra, a maior parte do mundo não passa fome. no brasil, o número de criminosos (apesar de serem muitos!) não chega nem a 0,2% da população. a desigualdade social é imensa mas tem diminuído aos troncos e barrancos. ainda temos muito o que evoluir a respeito da empatia e do convívio com a natureza, mas já sentimos algumas mudanças valorosas. o acesso à informação trouxe o empoderamento de muitas classes, as pessoas têm erguido mais a cabeça para assumir quem realmente são.

e poderia também passar um dia inteiro falando do que tem de bom nessa vida e como nem tudo é uma merda. mas não, porque meu objetivo não é que você esteja em nenhum extremo. existe o bom e existe o ruim. ponto. você só tem que ter consciência disso.

ok, o mal existe. todo mundo sabe. mas se você fica assistindo todos os dias aqueles jornais na hora do almoço ~que só passa desgraça e humilhação~ que você mal engole a comida; se o assunto que você usa pra puxar papo com as pessoas é o último político que roubou; se você só fica falando mal das pessoas e reclamando porque elas não são como você queria que fossem; se você acha que todo mundo é igual (ex: homem é safado, político é ladrão, advogado é oportunista); se você acha que sua verdade é única e absoluta; o seu cérebro vai internalizar que a vida é uma bosta e que ninguém presta. e isso se torna um ciclo, você vê coisa ruim, pensa coisa ruim, percebe a coisa ruim no mundo e consequentemente acha que o mundo é ruim. (Entenda mais sobre isso aqui). e o que acontece quando a gente acha que o mundo é ruim? a gente não tem esperança e vira um boneco inútil na terra.

[caso você queira ver notícias boas e mudar um pouco desse cenário, clique aqui, eu fiz um texto indicando bons sites de notícias do bem.]

você não pode deixar o mal entrar na sua mente. porque não é só ele que existe. mude a sua realidade. pare de ver só notícias ruins! nada contra ficar informado, mas a informação tem que ser total. se você só ver informação ruim, seu cérebro acredita que é só isso que existe.

quando você acredita que a realidade e a população são ruins, você emana essa energia ao universo. evidentemente ela não volta muito boa para você. mas pense isso em escala mundial, milhões e milhões de pessoas pensando negativamente. não pode!

pare de reclamar o tempo todo e preste atenção na sua vida. aconteceu só coisa ruim hoje? e ontem? e anteontem? impossível não ter tido nada de bom. nem um aprendizadozinho? uma reflexão sequer? tenho certeza que não foi de todo ruim!

por que a gente não tenta o contrário? milhões e milhões de pessoas pensando positivamente? para isso eu preciso de você. eu preciso de cada pessoa. porque de unidade em unidade que fazemos o montante. se você pensa “ah, mas ninguém faz, então também não vou fazer” ou “tá ruim pra todo mundo, estamos todos no mesmo barco”, você é o motivo para as coisas não estarem acontecendo!

meu sonho para 2018 é que eu possa fazer minha parte. que eu me empodere. que eu tenha mais empatia. que eu seja poesia. que eu questione o que eu não vejo sentido para mim e eu me permita ser cada vez mais autêntica. que eu ame cada elemento desse universo que me proporciona estar aqui nesse momento. e que eu possa amar as pessoas não porque elas têm algo a me oferecer, e sim porque eu ofereço esse amor sem pedir nada em troca.

eu te desejo o mesmo, mas eu não posso sonhar por você.

feliz ano novo!

sarita bruta





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listas,

4 sites pra você ficar informado sobre o que tem de bom acontecendo no mundo


é impressionante, no noticiário só passa miséria. falo do jornal de horário nobre, na tv aberta, com acesso a grande massa. se passa coisa boa é 1% do programa. eu, particularmente, só vejo quando estou num local em que não possa evitar, pois acho tudo mais do mesmo e me irrita o sensacionalismo que vem acompanhado com a tentativa de manipulação.

eu, na minha ignorância, estava pensando o quão maravilhoso seria se houvesse um noticiário de notícias do bem! porque já sei tudo que tem ruim, mas, agora, onde que eu vejo o que tem de bom?

mas, por isso que eu disse “ignorância”, porque já existe a ideia e ela está sendo muito bem utilizada. já segui, curti e estou acompanhando todos os sites porque em 2018 eu quero me rechear de coisa boa! ~não esquecendo, é claro, de questionar e fazer sua parte pra mudar tudo que há de mal~

separei alguns sites para quem tiver interesse em saber de coisa boa:

1. só notícia boa

com a proposta de te fazer bem, o só notícia boa é um site em formato mag (revista) com notícias relevantes sobre temas como educação, saúde, sustentabilidade, economia etc. é notícia de verdade, gente! e útil.

exemplos:

passagem de ônibus cai de r$ 4,25 para r$ 2,90 no pr
aumenta expectativa de vida do brasileiro. veja onde se vive mais
bolsista que adotar criança terá 4 meses de licença maternidade: direito

fiquei tão chocada com tanta notícia boa que queria colocar várias aqui, mas acessem o site deles e confiram com seus próprios olhos.

2.      notícia boa r7

é tanta notícia ruim, que o próprio r7, jornal de grande circulação, criou uma sessão para notícias boas. seria cômico, se não fosse trágico.

o jornal não é muito bem elaborado e não existem redes sociais específicas para o site, pois se trata apenas de uma categoria, mas consegui extrair boas notícias dele que a gente não vê em lugar nenhum:

criança que nasceu com hiv é curada após oito anos sem remédios
professores do estado vão receber mais de r$ 290 milhões em bônus nesta quarta-feira (19)

apesar de que, acabei observando agora que as notícias são bem antigas e não há atualização desde agosto desse ano! comprovando o quanto as notícias boas são ignoradas.

3.      jornal de boas notícias

esse site também é estilo mag e foca mais no quesito solidariedade. há muitas notícias importantes, porém veiculadas em outros jornais, apesar de perdidas no meio das outras reportagens destes. selecionei algumas interessantes que encontrei:

financiamento aproxima energia solar das grandes empresas
nike lança sua primeira linha de hijabs para atletas muçulmanas

4.      razões para acreditar

o razões para acreditar é uma ótima opção se você já perdeu a esperança nas pessoas. com vários notícias envolvendo proatividade, não tem como você sair da página sem acreditar que existe muita gente do bem. as melhores notícias foram:

campos do jordão terá pela primeira vez festa da virada com fogos silenciosos
projeto vai criar banco de imagens inspiradoras de mulheres negras
médico vai além do hospital e atende população de rua em sp

esses foram praticamente os únicos sites que encontrei de notícias do bem. realmente, o mercado ainda é precário nesse sentido. mas vamos dar uma força na iniciativa desses sites? visitem e curtam as páginas deles. além de acompanhar notícias do bem, você estará dando uma força para que projetos como esse continuem.

vocês conhecem mais algum site que trata do assunto? recomendem nos comentários!

partiu 2018 vendo o lado bom do jornalismo!

sarita bruta





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desabafos,

parem de me atrapalhar


eu não pedi pra nascer, sabe? eu só tô tentando ser feliz. não tô fazendo isso tudo de propósito. e não tô incomodando ninguém. essa última frase já foi mentira uma vez mas hoje é a pura verdade. eu fico quieta no meu canto o dia todo. malmente peço algo a alguém. me controlo o tempo inteiro pra não explodir. ninguém tem nada a ver com meu mal estar emocional. mas sabe lá deus porque, as pessoas ainda insistem em querer participar da minha vida. eu sei que a intenção é boa e o amor é grande mas tudo que elas querem é me controlar. dizer o que eu devo pensar e desejar. não percebem que eu preciso decidir o que quero pra minha vida sozinha? que eu nunca vou ser feliz vivendo a realidade de outra pessoa? eu só quero me encontrar. parem de me atrapalhar.

sarita bruta





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amor,

a(mar)


o mar é estonteante
ele sempre brilha
seja dia
seja noite

chova
ou faça sol

seu azul
seu cheiro
seu som
me inebriam

com ele vem a brisa
que bagunça meus cabelos
e conforta a minha pele

me sinto leve
e abençoada

que eu nunca me separe de ti

sarita bruta





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empoderamento,

aceita que dói menos


dúvida
de que?
tem outra escolha por acaso?

vai trabalhar
sai de casa
conhece umas pessoas

ninguém descobre o que quer ficando parado

para de canguiagem
investe em você

esquece a vida dos outros
para de depender das pessoas

você tá sozinho

aceita que dói menos

sarita bruta





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desenvolvimento pessoal,

2018 segundo as crenças


2017 parece não ter sido um bom ano para ninguém. não sei se foi impressão minha mas só vi gente reclamando dele e o mesmo foi alvo de muitos memes na internet.

mas o bom de ter sido um ano muito ruim é que a probabilidade de melhorar é alta. afinal, quando a gente já está no fundo do poço, não tem mais para onde descer.

as previsões estão otimistas (ou não), vejamos:

2018 segundo a numerologia:

o ano será representado pelo número 2 reduzido, significando que será um ano intenso no campo das emoções. haverá uma tendência entre se conter e explodir. guardar esses sentimentos pode trazer uma reação até mesmo violenta.

o ano exige saber lidar com as emoções. revelando mais uma vez a importância do autoconhecimento.

haverá inclinação ao pensamento 8 ou 80 (socorro!) para nos ensinar a habilidade de conciliar.

por outro lado, o número 2 representa a estabilização das situações conturbadas de 2017. favorece também as parceiras em todas as áreas. e melhora a intuição, podendo ser usada da melhor forma.

2018 segundo a astrologia:

o planeta que vai reger esse ano será júpiter, sendo o astro da abundância. esforços ocorridos em 2017 podem ser recompensados no próximo ano. será um período de muitas conquistas.

de igual modo, há uma tendência aos excessos, por isso, devemos nos atentar a nossa disciplina.

favorece também o desenvolvimento intelectual, facilitando o acontecimento de viagens, novos aprendizados, negócios e a carreira artística.

além do horóscopo anual, há um trânsito astrológico que começa em 29 de dezembro de 2017 e fica até 2020, que é a entrada de saturno em capricórnio. o apelidado carinhosamente por caprica significa colocar em prática todos os ideais, filosofias e conhecimentos adquiridos nos anos anteriores.

"durante o trânsito de saturno por capricórnio, podemos sentir inquietação para encontrarmos nossa posição social no mundo, principalmente em relação aquilo que fazemos em termos profissionais. em 2018, o trânsito pode nos levar a refletir profundamente se o que estamos fazendo está de acordo com nosso verdadeiro propósito."

lembrem-se que na astrologia o ano só inicia no primeiro dia do sol em áries (20/03).

2018 segundo o horóscopo chinês:

a energia chinesa para 2018 são do elemento terra em sua forma yang. o símbolo será o cão, que representa diálogo, solidariedade e partilha.

dessa forma, as conquistas só irão fluir para quem souber compartilhar com o próximo.

será um ano de mais racionalidade, lógica e equilíbrio. a necessidade de segurança e estabilidade realçará as discussões sociais.

sugere também uma mudança no estilo de vida. decisões serão tomadas de forma sensata.


fontes:

personare




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amor,

amor seguro, por que não?


sei que existem pessoas que gostam de se arriscar, de viver a vida perigosamente, de sentir coisas indescritíveis, mas até que ponto vai isso?

hoje li um texto no qual a autora falava para fugir de amores seguros pois eles não eram de verdade.

opa, pera aí, como assim? em outro momento, ela tentou se justificar falando que “amor seguro” não foi exatamente o termo apropriado para usar naquele contexto, mas a real é que o texto todo em si fala que o amor de verdade só é aquele que é avassalador.

não que eu discorde dela, cada um tem sua maneira de viver, mas amor/paixão avassalador(a) é legal de vez em quando mas por toda a vida? fala sério, todo mundo precisa de um momento de paz, de segurança, ninguém aguenta viver o tempo todo na loucura e na ansiedade de viver um amor desses…

enfim, acho que as pessoas estão seguindo muito a cultura do que é ser feliz, sem se preocupar com o que te faz feliz de verdade. um momento de descanso, a certeza de que alguém te ama. românticos não estão em extinção, só não é culturalmente bonito ser romântico.

há quem queira viver inseguro, eu não.

sarita bruta





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questione,

quem é você na árvore genealógica?


família é um bem muito importante, não há como discordar. em termos gerais, sua família que vai cuidar de você, que vai querer seu bem e ajudar como for possível, mesmo que você não mereça. acontece que, as famílias são formadas de seres humanos, que, por sua vez, possuem, cada um, uma personalidade própria, ideias e convicções delimitadas e uma visão de mundo completamente sua.

então, temos de convir que não é fácil se dar bem com todos da sua família. não vou nem falar dos casos em que há crime entre um familiar e outro, porque nestes é muito óbvio que muito provavelmente não há como existir uma relação amigável. digo das situações mais simples mesmo, daquelas pequenas divergências do dia a dia, em que você não suporta a pessoa, mesmo que seja por apenas um momento.

aí vem aquela incessante cobrança: “você não pode responder ao seu pai”, “você tem que dar atenção aos seus tios”, “você tem que procurar seus primos”, “por que você não sai mais com seu irmão?”, “um dia você vai precisar deles” e blá, blá, blá. engraçado que ninguém percebe quando você se afasta de um amigo. porque a família “é o bem mais precioso da humanidade”.

dentro da sua família, você pode ter amigos. os seus pais podem ser seus melhores amigos. mas por que isso é tão obrigatório? e por que sofrer tanta pressão se você não se der bem com eles? “se quer saber se ele vai te tratar bem, veja como ele trata a sua mãe”. não estou falando de respeito. todos merecem e devem ser respeitados. mas eu sou obrigada a manter uma vida social com os meus familiares, mesmo não tendo absolutamente nenhum gosto em comum?

sou obrigada a mandar um whatsapp dizendo “bom dia” pra mostrar que eu te considero? preciso abaixar a cabeça e ouvir todas os preconceitos que meu pai insiste em dizer sem ao menos discordar? tenho que aceitar todas as chantagens emocionais que minha mãe faz para chamar a atenção e largar tudo para me tornar sua assessora pessoal? tenho que satisfazer aquela avó chata que não importa o que eu faça, ela sempre vai achar ruim? me desculpe, mas, não, eu não consigo pactuar com isso.

esse vínculo que as pessoas insistem em criar é artificial e não há sentido nisso. quero estar com minha família porque eles são agradáveis, quero agradecê-los quando me ajudarem por espontânea vontade, quero discordar deles sem ter medo de ser a ovelha negra, quero que me vejam pelo que sou e não por quem eu sou na árvore genealógica.

sarita bruta





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amor,

o amor também se espalha (série: skam – último episódio)


skam é uma série adolescente da noruega. inicialmente, parece só mais um seriado do tipo americano, mas traz várias reflexões atuais e importantes.

o seriado se passa numa escola do ensino médio, no qual os personagens principais são os seus alunos. são 4 temporadas e cada uma delas aborda a vida de um dos estudantes e os problemas que eles vivenciam.

a quarta temporada se trata da personagem sana, trazendo a realidade de uma muçulmana que vive num país que não tem nada a ver com a sua cultura.

apesar da noruega ser um país mega desenvolvido, inclusive sendo o atual melhor em igualdade de gênero, a série traz à tona os preconceitos sofridos pelos muçulmanos e a falta de conhecimento e respeito sobre essa religião.

há uma acusação constante nos capítulos de todas as temporadas sobre a dita religião ser a responsável pela violência gerada nos países onde há sua maior prática. todos os alunos da escola têm medo de sana mas são eles quem praticam hostilidade com a personagem o tempo todo, provando a falta de relação entre a religião e brutalidade.

nas temporadas anteriores, também existem outros episódios que mostram com que facilidade cada um dos adolescentes vira alvo de ódio, seja por uma fofoca, pelo medo de não ser aceito e, até mesmo, pelo enfrentamento dos preconceitos e bullying.

esses temas são muito discutidos hoje em dia e tem uma relevância gritante. skam aborda muitos deles de uma forma muito natural: você está assistindo, se divertindo, rindo, e, de repente uma realidade bate na sua cara.


mas a melhor parte é a conclusão do seriado:





“o medo se espalha. mas... felizmente, o amor também se espalha.”

essa frase é tudo que a gente precisa saber para começar bem 2018. não importa o quanto de podridão haja no mundo. o amor ainda está aqui.

não importa o quanto a mídia nos empurre más notícias, esse não é o cenário completo. tem muita coisa boa acontecendo e a gente nem sabe.

neste novo ano, eu peço que você não perca a esperança. comece por você. se ame e ame o próximo, independente de como e quem ele seja. espalhe amor. mesmo que seja difícil e que as pessoas riam de você. faça sua parte.

não aceite sentimentos ruins, questione!

não deixe que nada nem ninguém dite como você encontra sua felicidade! seja você.

plante amor e colha amor.

sarita bruta





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questione,

pense fora da caixa mas não jogue a caixa fora


nossa, como o mundo mudou... eu cresci com tantas determinações do que era certo e errado e em tão pouco tempo já existem novas dinâmicas de relacionamento, de trabalho, de tanta coisa. às vezes nem são situações novas mas hoje nos sentimos mais livres para assumir comportamentos com autonomia e tentar performances inovadoras.

eu sempre me senti tranquila em relação a todo esse mundo novo, inclusive sinto que tenho atração pela modernidade. mas ocasionalmente eu pensava “acho que não sou tão avançada assim ainda” ou “ainda tenho os meus clichês”. e, de certa forma, me sentia um pouco mal com isso, por não acompanhar o progresso da sociedade.

mas aí eu comecei a refletir que não existe isso de “não sou mente aberta o bastante” ou “não sou espiritualizada o suficiente”... o que existe é o que funciona pra você, o que te faz se sentir bem e emanar sorrisos. o respeito pelo outro é essencial e todos nós sabemos disso, mas e o respeito por si mesmo, será que estamos nos atentando a isso?

obviamente a tecnologia e o acesso a todo e qualquer conhecimento nos faz crescer imensamente e devemos sim utilizar essa ferramenta para avançar e sempre seguir o caminho do desenvolvimento. mas nossos gostos, preferências e afinidades não há como controlar nem como passar por cima.

o verdadeiro avanço é respeitar o que existe dentro de nós e o que existe dentro do outro, convivendo em harmonia com as diferenças. pense fora da caixa mas não jogue a caixa fora.

sarita bruta





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desabafos,

só mais uma noite de natal


dezessete horas do dia 24 de dezembro de 2019.

eva olha com preguiça para o celular que grita apitando que é hora de se arrumar. desativa o alarme e antes de enrolar mais dois minutos, recebe uma ligação. antes que pudesse dizer alô:

- já tá se arrumando, né?

- tô, mãe. relaxa!

- vê se não atrasa de novo!

- cer – tum, tum, tum – to.

ela toma coragem, levanta, abre a geladeira para pensar alguns segundos e aceita que ela tem que ir a essa festa. eva sempre odiou festas de natal. a família dela não era muito próxima e essa era a única data em que se viam. era a noite da competição. quem está melhor vestido, quem emagreceu mais, quem foi promovido no emprego, quem trocou de carro, quem se divorciou e por aí vai...

eva abre o guarda-roupa e visualiza o vestido vermelho que, de praxe, compra todos os anos para a noite. pensa que depois deve juntá-lo as roupas que vai doar, já que não vai usar nunca mais mesmo. olha para o scarpin nude e lembra que pelo menos o sapato dá para gastar em outros eventos. “isso tudo é tão hipócrita, tanto luxo para sentar na varanda do meu tio, que tem a vista para prédios”. a cabecinha de eva martela em busca de uma fuga, mas sem muito sucesso.

reflete sobre quantos anos ainda irá passar por essa noite de terror e conclui que a única solução é ir morar em outro país e fingir que não deu para vir porque a passagem estava muito cara. “mas pelo menos só é uma noite”.

eva tomou banho, ficou de toalha matando mais um pouco de tempo enquanto olhava as notificações do celular e assistia seu gato fofíneo (é realmente o nome dele) se equilibrar enquanto andava por cima do sofá.

passa uma maquiagem leve, penteia o cabelo, abre mais uma vez o guarda-roupa, pega o vestido e coloca. se olha no espelho, “não vou ganhar a competição de quem emagreceu mais, mas também não perderei”, e ri, ironicamente. quando vai calçar o sapato, vê seu all star preto de cano alto todo gasto do ladinho do sapato quase inutilizado e não resiste, calça só pra zuar. tira umas fotos do look para rir mais depois e imagina a cara dos seus parentes boquiabertos vendo ela aparecer na noite de natal assim.

de alguma forma, eva começa a pensar nessa possibilidade com um pouco mais de seriedade. ela não tinha estabilidade em nenhuma área da vida mesmo, uma instabilidade na família não mudaria muita coisa.

em meios a seus devaneios, o telefona toca novamente e adivinhem quem é:

- eu não acredito que você está atrasada de novo! você não tem jeito mesmo, né, menina? não respeita sua família, não respeita sua mãe! não precisa nem mais vir.

e antes que eva pudesse pensar em se defender de alguma forma, a ligação já tinha se encerrado mais uma vez.

ela entendia um pouco a raiva da sua mãe, afinal, ela realmente tinha um péssimo costume de se atrasar. se fosse para um lugar que ela não queria, então era pior ainda. mas, ao mesmo tempo, lembrava que sempre era tratada mal por sua mãe, mesmo quando não estava atrasada.

isso foi a gota d’água para o dia péssimo que ela já tinha tido, sendo a motivação que ela precisava para tirar aquele vestido vermelho sofisticado e pôr seu camisão preto preferido estampado com uma mão apontando ao espectador e outra levantando o dedo do meio. resolveu que estava pronta.

sem pensar demais e para não desistir, encheu os potes de água e comida de fofíneo, pegou o celular, as chaves e bateu a porta.

chegando na casa do tio, tocou a campainha algumas vezes, até que sua priminha pequena, filha do segundo casamento do anfitrião, abriu a porta. não reconhecendo quem era, saiu correndo. eva achava encantador a memória de uma criança, que verdadeiramente não guardava informações inúteis, como nomes e rostos de parentes que só veem de ano em ano.

eva entra e logo avista alguns primos entediados no sofá, rindo de algum meme no celular de um deles, crianças correndo de um lado pro outro, seu avô e seus tios na varanda gourmet enchendo a cara... anda mais um pouco e vê as tias na cozinha, falando mal de alguém que ela não sabe quem é.

- evinha – sua tia jussara lhe abraça calorosamente, derramando o vinho de sua taça para todos os lados. claramente, já estava bêbada o suficiente para nem notar o seu novo estilo natalino e o seu atraso.

ela adentra à cozinha para cumprimentar as outras tias e percebe o olhar de curiosidade e espanto pelas suas vestes. abraça cada uma delas e, por sorte, não ouve um comentário sequer.

a essa altura, todos já sabem da sua presença e esperam para cumprimentá-la. todos permanecem com os mesmos olhares: indignação, reprovação e hesitação. mas todos fingem que nada está acontecendo, exceto por uma prima, que já lhe foi mais próxima, que pergunta em seu ouvido enquanto a abraça “o que você pensa que está fazendo?”.

- cadê minha mãe? – eva indaga, já que não a viu em lugar nenhum.

socorro aparece pelo corredor, saindo pela porta do banheiro. chega perto da filha e não entende o que está acontecendo, que roupa era aquela? “parece uma drogada”. mas segura seus pensamentos para não causar nenhum constrangimento. dá um beijo em cada lado da bochecha de eva como se não tivesse visto nada.

a noite segue enquanto eva tenta passar a maior parte do tempo na cozinha ajudando a arrumar e lavar os pratos para não ter que participar da famosa competição familiar, até que sua tia sofia começa um repentino questionário.

- deve ser triste morar sozinha, né?

- eu não moro sozinha, moro com o fofíneo.

- fabrício? que bom que você está namorando, eva! quando é o casamento?

- não é fabrício, é fofíneo, o meu gato!

- ah, que pena. pensei que você finalmente tivesse arranjado um homem para te fazer feliz.

- eu não preciso de um ho...

- evaaaa!!!!!!! – grita sua tia aurora da sala.

salva pelo gongo (ou não).

ela vai até a sala para um novo questionário.

- eu estou querendo me mudar, será que tem como você ver um apartamento pra mim?

- eu não trabalho mais com isso, tia.

- como assim? e você trabalha com o que?

- eu pensei que você já sabia, tia, estou trabalhando com artesanato e artes visuais. estou até com uma sócia e...

- mas isso não é trabalho!

eva respira e pede licença para ir ao banheiro mesmo sem nenhuma vontade de fazer xixi.

ela olha para o espelho e respira fundo. quantos dolorosos segundos de hipocrisia ainda terá que aguentar? mexe no celular para atrasar a volta para a sala mas não adianta muita coisa.

ao voltar para o ambiente da festa, é a vez dos seus tios lhe chamarem, pedindo para ela acompanhar-lhes na cerveja e, já cansada de falar a mesma coisa todos os anos, repete que não bebe. e ouve também a idêntica resposta “essa menina não sabe o que é bom na vida”.

- o que é isso, eva? – sua prima marcela (a antiga amiga) lhe chama.

- isso o que?

- essa roupa!

- ah, é o que eu gosto de vestir.

- mas aqui é um ambiente de família.

- uma família de seres humanos, certo?

- você só quer chamar atenção – e dá de ombros.

- talvez eu queira.

um outro primo de eva começa a conversar com ela, talvez o único que acredite que arte é um trabalho e conta sobre os textos que escreve, sua vergonha de publicá-los e as cobranças do seu pai para seguir o ramo da empresa de engenharia civil.

papo vem, papo vai, entre assuntos banais, eva está comendo várias coxinhas muito deliciosas quando a tia que quer serviço de corretagem free aparece novamente.

- sim eva, mas você está trabalhando com isso mesmo?

eva aponta para a boca que está cheia, demonstrando que não pode falar.

- sua mãe está muito triste com tudo isso, eva. não ter um emprego nem um marido com 32 anos é muito preocupante. você está envelhecendo e quem vai cuidar de você? você está contribuindo para o inss?

eva aperta os olhos, tentando ter paciência com o que acabou de ouvir e simplesmente responde:

- eu estou bem assim.

- não está não, eva. você já viu como estão os seus primos? empregados e casados (blá, blá, lá). eva parou de escutar quando começou os comparativos.

precisou ir no banheiro de novo, apesar de sua bexiga ainda não estar cheia.

encontrou sua mãe no corredor, que perguntou:

- luana viajou?

- não se preocupe, mãe, nós brigamos e ela não vai aparecer aqui.

- mas eu não tenho nada contra sua amiga vir aqui.

- ela é minha namorada, mãe! quando você vai aceitar?

- eu ainda tenho esperança que essa sua fase passe.

“não é uma fase. ahhhhhhh.” o grito foi mental mas só funcionaria mesmo se fosse pra fora.

ela entra no banheiro e respira, respira, respira. que tortura. se ela pelo menos pudesse silenciar todo esse show de horrores...

eva queria que desse para andar de um lado para o outro dentro do banheiro para gastar essa raiva que passava por dentro dela. ela queria subir no sofá e simplesmente dizer “eu finalmente resolvi ignorar todas essas verdades prontas que vocês e essa sociedade de merda querem nos obrigar a seguir. eu assumi minha sexualidade, resolvi trabalhar com o que eu amo e apesar de eu não ter nenhuma estabilidade eu realmente sinto que estou fazendo algo de útil pra mim e pra minha vida. se não estão gostando, olhem aqui” e apontar para a estampa da camisa.

mas ela não fez isso. as pessoas ficariam tão preocupadas em se chocar com tudo que ela estava fazendo que nem iriam absorver o que ela iria falar.

então simplesmente ela foi embora pela porta da cozinha sem que ninguém notasse.

era só uma noite de natal.

a última, ela esperava.


sarita bruta





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