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Conto Natalino




Dezessete horas do dia 24 de dezembro de 2019.

Eva olha com preguiça para o celular que grita apitando que é hora de se arrumar. Desativa o alarme e antes de enrolar mais dois minutos, recebe uma ligação. Antes que pudesse dizer alô:
- Já tá se arrumando, né?
- Tô, mãe. Relaxa!
- Vê se não atrasa de novo!
- Cer – tum, tum, tum – to.
Ela toma coragem, levanta, abre a geladeira para pensar alguns segundos e aceita que ela tem que ir a essa festa. Eva sempre odiou festas de natal. A família dela não era muito próxima e essa era a única data em que se viam. Era a noite da competição. Quem está melhor vestido, quem emagreceu mais, quem foi promovido no emprego, quem trocou de carro, quem se divorciou e por aí vai...
Eva abre o guarda-roupa e visualiza o vestido vermelho que, de praxe, compra todos os anos para a noite. Pensa que depois deve juntá-lo as roupas que vai doar, já que não vai usar nunca mais mesmo. Olha para o scarpin nude e lembra que pelo menos o sapato dá para gastar em outros eventos. “Isso tudo é tão hipócrita, tanto luxo para sentar na varanda do meu tio, que tem a vista para prédios”. A cabecinha de Eva martela em busca de uma fuga, mas sem muito sucesso.
Reflete sobre quantos anos ainda irá passar por essa noite de terror e conclui que a única solução é ir morar em outro país e fingir que não deu para vir porque a passagem estava muito cara. “Mas pelo menos só é uma noite”.


Eva tomou banho, ficou de toalha matando mais um pouco de tempo enquanto olhava as notificações do celular e assistia seu gato Fofíneo (é realmente o nome dele) se equilibrar enquanto andava por cima do sofá.
Passa uma maquiagem leve, penteia o cabelo, abre mais uma vez o guarda-roupa, pega o vestido e coloca. Se olha no espelho, “não vou ganhar a competição de quem emagreceu mais, mas também não perderei”, e ri, ironicamente. Quando vai calçar o sapato, vê seu all star preto de cano alto todo gasto do ladinho do sapato quase inutilizado e não resiste, calça só pra zuar. Tira umas fotos do look para rir mais depois e imagina a cara dos seus parentes boquiabertos vendo ela aparecer na noite de natal assim.
De alguma forma, Eva começa a pensar nessa possibilidade com um pouco mais de seriedade. Ela não tinha estabilidade em nenhuma área da vida mesmo, uma instabilidade na família não mudaria muita coisa.
Em meios a seus devaneios, o telefona toca novamente e adivinhem quem é:

- Eu não acredito que você está atrasada de novo! Você não tem jeito mesmo, né, menina? Não respeita sua família, não respeita sua mãe! Não precisa nem mais vir.
E antes que Eva pudesse pensar em se defender de alguma forma, a ligação já tinha se encerrado mais uma vez.
Ela entendia um pouco a raiva da sua mãe, afinal, ela realmente tinha um péssimo costume de se atrasar. Se fosse para um lugar que ela não queria, então era pior ainda. Mas, ao mesmo tempo, lembrava que sempre era tratada mal por sua mãe, mesmo quando não estava atrasada.
Isso foi a gota d’água para o dia péssimo que ela já tinha tido, sendo a motivação que ela precisava para tirar aquele vestido vermelho sofisticado e pôr seu camisão preto preferido estampado com uma mão apontando ao espectador e outra levantando o dedo do meio. Resolveu que estava pronta.
Sem pensar demais e para não desistir, encheu os potes de água e comida de Fofíneo, pegou o celular, as chaves e bateu a porta.

Chegando na casa do tio, tocou a campainha algumas vezes, até que sua priminha pequena, filha do segundo casamento do anfitrião, abriu a porta. Não reconhecendo quem era, saiu correndo. Eva achava encantador a memória de uma criança, que verdadeiramente não guardava informações inúteis, como nomes e rostos de parentes que só veem de ano em ano.
Eva entra e logo avista alguns primos entediados no sofá, rindo de algum meme no celular de um deles, crianças correndo de um lado pro outro, seu avô e seus tios na varanda gourmet enchendo a cara... Anda mais um pouco e vê as tias na cozinha, falando mal de alguém que ela não sabe quem é.
- Evinha – sua tia Jussara lhe abraça calorosamente, derramando o vinho de sua taça para todos os lados. Claramente, já estava bêbada o suficiente para nem notar o seu novo estilo natalino e o seu atraso.
Ela adentra à cozinha para cumprimentar as outras tias e percebe o olhar de curiosidade e espanto pelas suas vestes. Abraça cada uma delas e, por sorte, não ouve um comentário sequer.
A essa altura, todos já sabem da sua presença e esperam para cumprimentá-la. Todos permanecem com os mesmos olhares: indignação, reprovação e hesitação. Mas todos fingem que nada está acontecendo, exceto por uma prima, que já lhe foi mais próxima, que pergunta em seu ouvido enquanto a abraça “O que você pensa que está fazendo?”.
- Cadê minha mãe? – Eva indaga já que não a viu em lugar nenhum.

Socorro aparece pelo corredor, saindo pela porta do banheiro. Chega perto da filha e não entende o que está acontecendo, que roupa era aquela? “Parece uma drogada”. Mas segura seus pensamentos para não causar nenhum constrangimento. Dá um beijo em cada lado da bochecha de Eva como se não tivesse visto nada.
A noite segue enquanto Eva tenta passar a maior parte do tempo na cozinha ajudando a arrumar e lavar os pratos para não ter que participar da famosa competição familiar, até que sua tia Sofia começa um repentino questionário.
- Deve ser triste morar sozinha, né?
- Eu não moro sozinha, moro com o Fofíneo.
- Fabrício? Que bom que você está namorando, Eva! Quando é o casamento?
- Não é Fabrício, é Fofíneo, o meu gato!
- Ah, que pena. Pensei que você finalmente tivesse arranjado um homem para te fazer feliz.
- Eu não preciso de um ho...
- EVAAAA!!!!!!! – grita sua tia Aurora da sala.
Salva pelo gongo (ou não).
Ela vai até a sala para um novo questionário.
- Eu estou querendo me mudar, será que tem como você ver um apartamento pra mim?
- Eu não trabalho mais com isso, Tia.
- Como assim? E você trabalha com o que?
- Eu pensei que você já sabia, Tia, estou trabalhando com artesanato e artes visuais. Estou até com uma sócia e...
- Mas isso não é trabalho!
Eva respira e pede licença para ir ao banheiro mesmo sem nenhuma vontade de fazer xixi.
Ela olha para o espelho e respira fundo. Quantos dolorosos segundos de hipocrisia ainda terá que aguentar? Mexe no celular para atrasar a volta para a sala mas não adianta muita coisa.
Ao voltar para o ambiente da festa, é a vez dos seus tios lhe chamarem, pedindo para ela acompanhar-lhes na cerveja e, já cansada de falar a mesma coisa todos os anos, repete que não bebe. E ouve também a idêntica resposta “essa menina não sabe o que é bom na vida”.
- O que é isso, Eva? – sua prima Luana (a antiga amiga) lhe chama.
- Isso o que?
- Essa roupa!
- Ah, é o que eu gosto de vestir.
- Mas aqui é um ambiente de família.
- Uma família de seres humanos, certo?
- Você só quer chamar atenção – e dá de ombros.
- Talvez eu queira.
Um outro primo de Eva começa a conversar com ela, talvez o único que acredite que arte é um trabalho e conta sobre os textos que escreve, sua vergonha de publicá-los e as cobranças do seu pai para seguir o ramo da empresa de engenharia civil.
Papo vem, papo vai, entre assuntos banais, Eva está comendo várias coxinhas muito deliciosas quando a Tia que quer serviço de corretagem free aparece novamente.
- Sim Eva, mas você está trabalhando com isso mesmo?
Eva aponta para a boca que está cheia, demonstrando que não pode falar.
- Sua mãe está muito triste com tudo isso, Eva. Não ter um emprego nem um marido com 32 anos é muito preocupante. Você está envelhecendo e quem vai cuidar de você? Você está contribuindo para o INSS?
Eva aperta os olhos, tentando ter paciência com o que acabou de ouvir e simplesmente responde:
- Eu estou bem assim.
- Não está não, Eva. Vocês já viu como estão os seus primos? Empregados e casados (blá, blá, lá). Eva parou de escutar quando começou os comparativos.
Precisou ir no banheiro de novo, apesar de sua bexiga ainda não estar cheia.
Encontrou sua mãe no corredor, que perguntou:
- Luana viajou?
- Não se preocupe, mãe, nós brigamos e ela não vai aparecer aqui.
- Mas eu não tenho nada contra sua amiga vir aqui.
- Ela é minha namorada, mãe! Quando você vai aceitar?
- Eu ainda tenho esperança que essa sua fase passe.
“Não é uma fase. AHHHHHHH.” O grito foi mental mas só funcionaria mesmo se fosse pra fora.
Ela entra no banheiro e respira, respira, respira. Que tortura. Se ela pelo menos pudesse silenciar todo esse show de horrores...
Eva queria que desse para andar de um lado para o outro dentro do banheiro para gastar essa raiva que passava por dentro dela. Ela queria subir no sofá e simplesmente dizer “Eu finalmente resolvi ignorar todas essas verdades prontas que vocês e essa sociedade de merda querem nos obrigar a seguir. Eu assumi minha sexualidade, resolvi trabalhar com o que eu amo e apesar de eu não ter nenhuma estabilidade eu realmente sinto que estou fazendo algo de útil pra mim e pra minha vida. Se não estão gostando, olhem aqui” e apontar para a estampa da camisa.
Mas ela não fez isso. As pessoas ficariam tão preocupadas em se chocar com tudo que ela estava fazendo que nem iriam absorver o que ela iria falar.
Então simplesmente ela foi embora pela porta da cozinha sem que ninguém notasse.
Era só uma noite de natal.
A última.


Autoria: Brutamor




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TOP 5 MENSAL

Memórias, apenas.

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Que as águas se moviam
Que as flores encantavam
Que teus risos me emocionavam
Mas agora tudo mudou
Não vejo mais pássaros, livres, voando
Nem tua boca me falando
O que eu sempre gostei de ouvir
Que as rosas que tu recebias de mim
Eram as coisas mais belas
E o belo se fez feio
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Miqueias Laurentino

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Convite pra ser adulto

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A força do querer

Nem sempre o segredo faz dar certo
Ao contrário do que todo mundo fala
Externar sua vontade pode te fazer realizar

Quando o amor vira um martírio

Quando você ama uma pessoa sempre quer o melhor para ela. Você quer que ela sorria e seja feliz. Então você usa as ferramentas que tem para ajudar essa determinada pessoa a alcançar o máximo de sensações boas possíveis. E isso tudo é muito lindo, é amor.